Publicado em exame.com: Cura da Aids está mais próxima, dizem cientistas

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

São Paulo — O HIV é o vírus mais conhe­cido pela ciên­cia, como resul­tado de gran­des inves­ti­men­tos em pes­quisa nas últi­mas déca­das. Os inú­me­ros avan­ços con­quis­ta­dos modi­fi­ca­ram muito, para melhor, a rea­li­dade dos por­ta­do­res do vírus. Mas ainda há um longo cami­nho pela frente para que se possa con­tro­lar a epi­de­mia de HIV-Aids.

A con­clu­são é de Esper Kal­lás, pro­fes­sor da Facul­dade de Medi­cina da Uni­ver­si­dade de São Paulo (FM-USP) que orga­ni­zou, na semana pas­sada, em São Paulo, o 6º Curso Avan­çado de Pato­gê­nese do HIV, no qual foram dis­cu­ti­dos temas como tra­ta­mento, desen­vol­vi­mento de vaci­nas e epi­de­mi­o­lo­gia do vírus.

O curso, que trouxe ao Bra­sil 30 dos prin­ci­pais espe­ci­a­lis­tas em HIV de todo o mundo, inte­grou as ati­vi­da­des do Ins­ti­tuto Naci­o­nal de Ciên­cia e Tec­no­lo­gia de Inves­ti­ga­ção em Imu­no­lo­gia (INCT-iii), cuja área de HIV-Aids é coor­de­nada por Kallás.

O Pro­grama INCT foi lan­çado em dezem­bro de 2008 pelo Minis­té­rio da Ciên­cia e Tec­no­lo­gia (MCT), por meio do Con­se­lho Naci­o­nal de Desen­vol­vi­mento Cien­tí­fico e Tec­no­ló­gico (CNPq), com recur­sos obti­dos em par­ce­ria com as fun­da­ções de amparo à pes­quisa esta­du­ais. A Fapesp finan­cia 50% dos valo­res des­ti­na­dos aos ins­ti­tu­tos sedi­a­dos no Estado de São Paulo.

 

Três desa­fios

Segundo Kal­lás, as apre­sen­ta­ções dos espe­ci­a­lis­tas durante o curso mos­tra­ram que as des­co­ber­tas rela­ci­o­na­das a vários aspec­tos do vírus e da Aids não ces­sa­ram nos últi­mos anos – e melho­ra­ram efe­ti­va­mente a vida dos paci­en­tes –, mas ainda é pre­ciso avançar.

Os avan­ços que tive­mos desde a iden­ti­fi­ca­ção da sín­drome da Aids até hoje foram imen­sos. Mas ainda temos três gran­des desa­fios pela frente. O pri­meiro é desen­vol­ver uma vacina pro­te­tora. O segundo, com­pre­en­der o meca­nismo de dege­ne­ra­ção e com­ba­ter o enve­lhe­ci­mento dos por­ta­do­res. O ter­ceiro é des­co­brir como curar o indi­ví­duo. Quando cum­prir­mos esses três obje­ti­vos, pode­re­mos con­tro­lar ou eli­mi­nar a epi­de­mia”, disse ele.

De acordo com Esper Kal­lás, os inves­ti­men­tos na pes­quisa sobre o HIV, que sem­pre foram con­si­de­rá­veis, pre­ci­sam per­ma­ne­cer no mesmo pata­mar para que seja pos­sí­vel che­gar a esses objetivos.

O HIV é segu­ra­mente o vírus que mais conhe­ce­mos hoje em dia e para o qual nós mais tive­mos inves­ti­men­tos em pes­quisa. Mas é pre­ciso dar con­ti­nui­dade a isso. É impor­tante obser­var, no entanto, que os recur­sos inves­ti­dos na pes­quisa sobre Aids não ficam res­tri­tos a essa área, mas aca­bam se repli­cando para várias outras. Não pode­mos esque­cer que esse tipo de inves­ti­mento é feito prin­ci­pal­mente a longo prazo, na for­ma­ção de recur­sos huma­nos, na dis­se­mi­na­ção de conhe­ci­mento e na capa­ci­ta­ção de gru­pos de pes­quisa”, destacou.

A situ­a­ção dos paci­en­tes atu­al­mente, em com­pa­ra­ção com a do iní­cio da epi­de­mia na década de 1980, é bas­tante dife­rente, segundo Kal­lás. Mas isso não sig­ni­fica que a doença possa ser enca­rada com indiferença.

Naquela época, ser por­ta­dor da doença tinha um sig­ni­fi­cado ainda mais dra­má­tico. Hoje é dife­rente, mas a doença não pode ser igno­rada. Ela ainda tem um impacto muito grande, em ter­mos de saúde pública, de saúde indi­vi­dual e até mesmo no que diz res­peito ao custo finan­ceiro. A con­di­ção do doente melho­rou muito em rela­ção ao que era antes, mas ainda temos muito o que fazer”, afirmou.

Vaci­nas experimentais

Durante o curso, uma revi­são do tema da pato­gê­nese do HIV foi apre­sen­tada aos estu­dan­tes, médi­cos e outros pro­fis­si­o­nais par­ti­ci­pan­tes. Mas o aspecto prin­ci­pal do curso con­sis­tiu em estrei­tar o con­tato com os dados recen­tes das pes­qui­sas rea­li­za­das pelos cien­tis­tas que apre­sen­ta­ram conferências.

Tive­mos a opor­tu­ni­dade de ver o que está na fron­teira do conhe­ci­mento da pato­ge­nia do HIV tanto em rela­ção à trans­mis­são, como à pre­ven­ção, à res­posta imune, à viro­lo­gia e ao tra­ta­mento da infec­ção”, disse Kallás.

Todas essas áreas apre­sen­ta­ram avan­ços recen­tes de grande impor­tân­cia. “Na ques­tão da pre­ven­ção, por exem­plo, tive­mos aqui a apre­sen­ta­ção dos dados mais recen­tes rela­ci­o­na­dos à pro­fi­la­xia da pré-exposição ao vírus. Na parte de imu­no­lo­gia, tive­mos a iden­ti­fi­ca­ção de novas sub­po­pu­la­ções celu­la­res envol­vi­das na res­posta imune”, afirmou.

Dege­ne­ra­ção

Já na área de reco­nhe­ci­mento dos aspec­tos bio­de­ge­ne­ra­ti­vos da infec­ção pelo HIV, o curso pro­por­ci­o­nou dis­cus­sões sobre senes­cên­cia celu­lar e mar­ca­do­res de ati­va­ção. Na parte de viro­lo­gia, foi apre­sen­tada a iden­ti­fi­ca­ção de novos alvos para a ação antir­re­tro­vi­ral e meca­nis­mos de defesa celular.

Tive­mos tam­bém a dis­cus­são de novos dados de diver­si­dade gené­tica do HIV e novos dados de dis­tri­bui­ção e trans­mis­são de HIV no Bra­sil e no mundo. No que se refere ao tra­ta­mento, dis­cu­ti­mos as novi­da­des de desen­vol­vi­mento de novas dro­gas e deba­te­mos situ­a­ções espe­ci­ais como a infec­ção aguda, ou pes­soas que não res­pon­dem com a ele­va­ção de lin­fó­ci­tos TCD4. O curso teve ainda exten­sas dis­cus­sões sobre a ques­tão da resis­tên­cia”, disse Kallás.

Na área de vaci­nas, foram apre­sen­ta­dos resul­ta­dos recen­tes de diver­sos gru­pos com vaci­nas expe­ri­men­tais can­di­da­tas para com­ba­ter a trans­mis­são do HIV. Foram deba­ti­dos alguns dos prin­ci­pais gar­ga­los para o avanço cien­tí­fico em imunologia.

Um dos gar­ga­los é que ainda não temos um mar­ca­dor de pro­te­ção bem defi­nido. Não con­se­gui­mos dizer com pre­ci­são, com base em um teste espe­cí­fico, se uma pes­soa vai ficar pro­te­gida ou não. Em segundo lugar, o vírus é muito diverso, muda muito de pes­soa para pes­soa e até mesmo den­tro de um mesmo indi­ví­duo ele pos­sui uma grande diver­si­dade. Uma vacina tem difi­cul­dade de iden­ti­fi­car e reco­nhe­cer essas vari­a­ções virais”, disse.

Outro gar­galo, ainda segundo Kal­lás, é que não se sabe exa­ta­mente qual é a região do vírus e o tipo de res­posta que con­se­gue de fato gerar pro­te­ção. “Há várias ten­ta­ti­vas, sabe­mos algu­mas des­sas coi­sas, mas não sabe­mos ainda com cer­teza essa defi­ni­ção. Tive­mos avan­ços que foram apre­sen­ta­dos e que per­mi­tem enten­der alguns des­ses pro­ble­mas, mas ainda temos um longo cami­nho pela frente”, disse.

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